ARTIGO - Carlos Jehovah: Libertário, Humanista e Mecenas

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...O amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha...não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade... (1 Coríntios 13.4-6).


Eduardo Moraes* 

Mecenas, termo derivado do nome de Caio Mecenas (68–8 a.C.), um influente conselheiro do imperador Augusto, que formou um círculo de intelectuais e poetas, sustentando sua produção artística. Assim é Carlos Jehovha de Brito Leite, nascido a 07 de novembro de 1944, em Vitória da Conquista, traz um traço inato, se colocando desde cedo a serviço do humanismo e amor às artes. Ainda adolescente, deixou-se possuir pelo universo da literatura e poesia, tornando – se poeta, literata e dramaturgo, dirigindo e encenando a peça Os Sacanas, prefaciada pelo versejador mais premiado da Bahia, Camilo de Jesus Lima (1912-1975). Autores teatrais como: Molière (França, 1622-1673, dramaturgo francês, considerado um dos mestres da comédia satírica. Augusto Boal (1934-2009) foi diretor teatral, dramaturgo e ensaísta, uma das grandes figuras do teatro contemporâneo internacional,1931-2009, considerado o criador do Teatro do Oprimido, de forte ação social e política, e Plínio Marcos, escritor, autor de inúmeras peças de teatro, 1935-1999, principais obras: Dois Perdidos numa Noite Suja, Rainha Diaba, A Navalha na Carne, foram gratos ao mecenas conquistense, pela montagem e exibição das suas obras teatrais aqui em nossa cidade e Região. Bancário do Econômico, Excel, BBV e Bradesco, Carlos Jehovah, tem um papel de destaque no panteão dos imortais acadêmicos brasileiros, seja pelo seu legado como: encenador, diretor, dramaturgo, memorialista, e consagrado como escritor, especialmente por sua obra em parceria com Esechias Lima, Auto da Gamela e mais quase uma dezena de outros livros publicados.

Desde o final do século vinte, falar de altruísmo, humanismo, responsabilidade social, solidariedade, inclusão, oportunidade e voluntariado, tornou-se linguagem da moda. Inspirado por todos esses valores, em Vitória da Conquista, Carlos Jheovah nos proporciona a linguagem da arte como transformadora da realidade social de forma concreta e presente nos idos das décadas de 60 a 80, motivado por uma grandiosidade humana e amor ao próximo, à nossa arte, ao nosso povo, a pátria, e a nossa cidade, inquieto e indignado com o tempo sombrio da Ditadura Militar, pobreza, censura, miséria e desigualdades. Se articula com outros jovens libertários, funda e dirige a Casa da Cultura, escreve poemas Cicatriz, picha muros, se integra à direção do sindicato dos bancários e do autentico Movimento Democrático Brasileiro (MDB), publica Quotidiano, denunciando a fome e as desigualdades sociais, através das suas mais variadas formas de expressões artísticas, em todas as suas dimensões, funda e preside a Academia Conquistense de Letras, Associação de Apoio à Saúde Conquistense – ASAS, ...

O jovem desprendido, talentoso, na arte da representação, teatral, escrita, poesia, memórias e histórias sobre a cidade e o cotidiano do povo, dedicava-se não apenas a representar, as suas performances, nos palcos do Cine Ritz, Colégio Paulo VI, ou alhures.  Consagrado através da obra o auto da Gamela, Livro traduzido e representado em mais de uma dezena de países. Também em parceria com o escritor e historiador Mozart Tanajura, escreveu "O Corpo do Morto", um texto decisivo para o teatro conquistense, por retratar com ênfase o quadro de abandono e penúrias imposto ao homem do Sertão Nordestino.
Em um tempo distante, sem qualquer apoio público, privado, ou se quer cobrando ingressos, inscrições ou mensalidades do público frequentador das peças, cursos e outros eventos organizados ou produzidos integralmente por Jehovah, seja na casa da Cultura, escolas públicas, associações de moradores, teatro Carlos Jehovah, o resultado do seu esforço é seguido por outros jovens artistas sonhadores. Jehovah, é assim! Desprovido de vaidade, amante das artes, incentivando, promovendo e oportunizando a todos, jovens e adultos, a ingressarem no mundo das artes, música, ou literatura, sem qualquer outro interesse. Reunia essas pedras brutas para lapidar uma a uma, fazendo desabrochar talentos – muitos se firmaram como grandes atores, músicos, escritores, atuando em nível nacional. Outros se tornaram referências como médicos, advogados, professores, etc.

Assim Jehovah, em sua grandiosidade humana, fez acontecer, e a juventude de Vitória da Conquista, viver jovens tardes, noites, sábados e domingos cheia de cultura e inquietação. Seja nos pátios das escolas, teatro pelas ruas do centro e periferia da cidade, reunia as comunidades para através das artes denunciar o golpe militar, os pacotes governamentais anti-povo, ou mobilizar a população para a importância da política, orientando-os a eleger deputados para a Constituinte de 1986, comprometidos com a cidadania.

Foi um tempo em que Carlos Jehovah, como um verdadeiro Dom Quixote, levou a vida a desafiar gigantescos moinhos de vento, de descaso, preconceito e falta de apoio. Quando quase sempre, com dinheiro do próprio bolso, montou cenários, construiu enredos para fazer a arte chegar ao povo. Quantas vezes, após apresentações em bairros como Patagônia, ou no Alto Maron, já tarde da noite, atravessamos a cidade, rumo a casa do “Diretor” Carlos Jehovah, no Bairro Sumaré, carregando, figurino, cenário, iluminação, material para maquiagem, etc., era tudo bom demais; todos nós motivados por Jehovah, fazíamos tudo por puro prazer, já que nos divertíamos enquanto exercíamos a nossa amizade e procurávamos imitar a grandiosidade desse mecenas amante das artes, do povo brasileiro e da liberdade. “Para o poeta e dramaturgo Carlos Jehovah, seus trabalhos têm de expressar a dor coletiva, o espírito da unificação, a pulsação social que faz do homem um ser em constante busca de sentido para sua breve história sobre a face Terra”.

Jehovah é homenageado pelo município na década de 80, com a inauguração teatro do Teatro Municipal Carlos Jehovah, no dia 1º de maio de 1982. É um teatro de arena, humilde, acolhedor como o homenageado com objetivo de aproximar a música e arte cênica do povo. Hoje Jehovah, possuidor de um acervo inédito de poesias e outras obras, dedica-se ao lado da sua companheira, amigos e familiares a zelar pelo restabelecimento da sua saúde. A ausência de Jehovah faz falta na cena artística da cidade. Vitória da Conquista, o mundo das artes, e o universo, para evoluir, precisa de seres iluminados como Carlos Jehovah, verdadeiramente, desprendido, altruísta, apaixonado pela vida, de uma dignidade e amor ao próximo invejável. Vitória da Conquista tem uma dívida, precisa reconhecer e pagar a esse verdadeiro mecenas ainda em vida.   

Eduardo Moraes é bancário, historiador e contador 

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