NOTÍCIAS DO MANDATO | Câmara debate Risco e Prevenção ao Suicídio; audiência pública foi coordenada pela vereadora Nildma Ribeiro

Imagem AUDIÊNCIA PÚBLICA: Câmara debate Risco e Prevenção ao Suicídio
A Câmara Municipal de Vitória da Conquista (CMVC) realizou, nessa quarta-feira (19), uma audiência pública para discutir o Setembro Amarelo, uma campanha que acontece desde 2015 em todo o país e visa a conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio.

A vereadora Nildma Ribeiro (PCdoB), proponente da audiência, explicou que este debate é uma ação conjunta entre CMVC e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), por meio do Centro Universitário de Atenção à Saúde.



“Estamos aqui pra tratar desse tema importante. Para quebrar esse tabu e debater sobre o suicídio”, disse. “O nosso objetivo é promover essa discussão e fazer o nosso papel como agentes transformadores, buscando uma sociedade melhor, mais justa e mais digna para todos”, frisou a vereadora.

Dados Epidemiológicos do Suicídio – Thaíse Andrade Fernandes, Diretora de Saúde Mental do Município de Vitória da Conquista, apresentou dados que demonstram o aumento crescente de tentativas e de suicídios tanto no Brasil, como na Bahia e em Conquista.

Ela explicou que precisão dos dados ainda é baixa, e que é preciso melhorar esse monitoramento para melhorar a prevenção. Segundo Thaíse, cerca de 11 mil pessoas tiram sua própria vida por ano, no Brasil, e essa é a 4ª maior causa de morte entre os jovens. Em Vitória da Conquista, ela explica que os dados mostram apenas os casos registrados na rede CAPS. Em 2018, já há cerca de 40 ocorrências notificadas de tentativa de suicídio, e o CAPS está atendendo cerca de 98 crianças e adolescentes que demonstraram ações de automutilação ou tentativa de suicídio. 

“Eles não querem sair da vida, querem sair do sofrimento” – A psicóloga Ana Mara, explicou sobre a situação das pessoas que tentam o suicídio, assim como as maneiras que os profissionais e a família devem acolher essa pessoa. Ana Mara defende que os profissionais precisam compreender que ao tratar alguém que tentou o suicídio, estão diante de uma pessoa que tem uma história única. “Não podemos esquecer da singularidade da história dessa pessoa que se encontra em sofrimento”, disse. “É uma situação extrema. Precisamos entender que, no mínimo, essa pessoa está desesperada e desesperançosa”, completou.

A psicóloga explica que nesses casos, os profissionais precisam “emprestar esse desejo da vida” aos pacientes para tornar essa vida possível de novo. “Buscando a singularidade desse sujeito, levamos ele a se confrontar com seu próprio desejo, com suas expectativas, e com a não realização delas. Muitas delas não serão realizadas, e eles terão que lidar com a frustração”, explicou. Em relação a família, Ana Mara orienta que tenham uma postura acolhedora, empática e não julgadora para que ela não se sinta pior. “Essas pessoas não estão conseguindo perceber o amor na vida. É preciso ensinar esses caminhos para que elas possam ter outros percursos”, afirmou.

Suicídio como um problema de saúde pública – A professora Selma Norberto explicou que o Setembro Amarelo tem o objetivo direto de alertar a população para o problema dos casos de suicídio. “O suicídio é reconhecido como problema de saúde pública”, apontou ela, defendendo uma abordagem multidisciplinar para o problema, a fim de atender às várias causas das práticas suicidas.

Suicídio e Políticas Públicas – A psicóloga Monalisa Barros apontou que grande parte das pessoas não conseguem identificar a origem da angústia que lhes causa o desejo de morrer. “Saber de onde vem as coisas é importante. Identificá-las, mudá-las e entender que elas são passíveis de mudança é fundamental”, disse Barros.

“Essas pessoas que tentam o suicídio estão dominadas pelo vazio, pelo nada”, disse ela destacando a forma como a atual sociedade está construída como um dos fatores que estão conduzindo pessoas a cometerem o suicídio. Ela apontou que os avanços cada vez mais constantes e profundos estão transformando as relações no mundo, impactando de forma ainda desconhecida a vida das pessoas, privilegiando o individualismo. “A gente precisa de vínculo para viver”, disse a psicóloga ressaltando a necessidade humana de relacionamento.

Monalisa Barros destacou a necessidade de uma ação multifatorial para buscar a solução do problema. “Um problema multifatorial desse tamanho não pode ser resolvido com apenas uma ação, precisa de uma ação multifatorial. Passa pela política pública de forma muito concreta”, defendeu ela apontando que é preciso incluir, estimular relações nas mais variadas esferas, fazendo com que as pessoas se sintam parte deste mundo.

Transtorno Mentais e Suicídio/ Fatores de Risco e de Prevenção – Segundo a diretora do hospital Crescêncio Silveira, Lygia Matos, estatísticas mostram os homens com uma taxa de suicídio maior, mesmo que a tentativa entre mulheres seja 3 vezes maior. Em relação a faixa etária, mostra-se pessoas entre 19 a 49 anos mais propensas a cometer tal prática. No entanto, Lígia alerta que o número de suicídio entre adolescentes vem crescendo consideravelmente. Outro fator de risco apresentado é sofrimento mental.

“Não só os transtornos, mas todo o tipo de sofrimento. A depressão é a maior com 35%, o uso de substância psicoativas com 22%, pacientes com esquizofrenia 10%, e com transtorno de personalidade 11%”, citou. Lígia acredita que, embora o suicídio seja evitável, quando o paciente está em delírio ou alucinação, se a ajuda não chega a tempo, é quase inevitável a prática.

Ela aponta também como fator de risco, casos de abuso físico e sexual às crianças, falta de apoio social, desemprego, violência doméstica e acesso fácil a meio letais. A respeito do último item citado, Lígia chama atenção. “Estamos criando um grande risco porque 28% da população está defendendo um candidato que defendem o uso de armas. Será que vamos nos tornar uma país mais seguro, ou com mais risco?”, questionou.

Grupos de risco – O coordenador geral do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), Dr. Wesley Burgos, apontou que “um grande percentual dos suicídios acontece naqueles que possuem já uma patologia psiquiátrica, transtornos do humor e de personalidade, uso de substâncias psicoativas”.

De acordo com o médico, a divulgação midiática de casos de suicídio tem como consequência o aumento de tentativas de suicídio, muitas vezes com modalidade de tentativa e local muito parecidas entre si.

Prevenção do suicídio nos espaços de trabalho – A psicóloga da Universidade Federal da Bahia, Carla Eloá, chamou atenção para os fatores coletivos envolvidos no suicídio. “O suicídio é um fenômeno social”, explicou ela. “Envolve também a esfera do trabalho”, apontou, destacando a importância do trabalho, do qual as pessoas tiram o seu sustento.

“Estar excluído da esfera do trabalho significa estar à margem da sociedade”, emendou ela explicando angústias como o medo da perda do emprego com o qual as pessoas acabam convivendo e, por ele, se submetendo a várias situações como assédio moral e rivalidade entre colegas.

Segundo psicóloga, tudo isso faz com que as pessoas entrem em um estado de vulnerabilidade, causado também pela falta efetiva do trabalho, aumentando a incidência de sofrimentos psíquicos que conduzem alguns indivíduos ao suicídio, numa “relação íntima com o processo produtivo”. Ela apontou que se faz necessária uma postura de atenção à saúde do trabalhador a fim de identificar mudanças de comportamento que podem indicar o início de algum problema precocemente evitando a prática suicida.

Prevenção do Suicídio dos Trabalhadores da Segurança Pública – O Comandante do 7º Grupamento de Bombeiros da Bahia conta que em virtude de situações estressantes e de catástrofes e tragédias humanas, os profissionais da segurança pública precisam de acompanhamento psicológico e terapêutico constantemente.

“Os bombeiros, na sua formação, recebem o preparo para esse tipo de crise. Mas é muito grande o número de policiais e agentes penitenciários que cometem suicídio”, pontuou. O Comandante afirma que tanto o Corpo de Bombeiros, quanto a Polícia se preocupa bastante com essa questão. E, no momento, com a colaboração da UESB, esses profissionais estão recebendo orientações psicológicas. “Quando acontece algum tipo de tragédia, o profissional já é encaminhado para o acompanhamento psicológico”, contou.

Abordagem do Suicídio no Sistema Prisional – O diretor adjunto do presídio Nilton Gonçalves, Joir Sala, destacou que a unidade conta com uma equipe multiprofissional formada por dois psicólogos, um psiquiatra e uma assistente social. “Esse conjunto é garantidor da saúde mental dos carcerários e servidores”, afirmou.

“Essa equipe é fundamental para a garantia da saúde mental deles. A própria privação da liberdade pode resultar em transtornos e distúrbios”, explicou.  Ele afirma também que esse tratamento individual é necessário para que o carcerário não confunda a ausência de liberdade com ausência de perspectiva de mudança.

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