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ARTIGO | Por que tememos a Morte? (Padre Carlos)*

Faz alguns anos que fui procurado por um senhor que tinha perdido o filho naqueles dias e suas duvidas e incertezas quanto à vida após a morte era evidente.
Apesar de estudar filosofia, teologia e tantas mais ciências, esta resposta não se dá através do intelecto, mas, na certeza que vamos construído com a nossa fé. Suas duvidas e minhas certezas levaram a estes questionamentos, que além de teológico, não deixa de ter suas vertentes filosóficas.

O que é ressuscitar? Esta pergunta sempre aparece nos momentos mais difíceis da nossa vida. Um dos grandes problemas da nossa existência, é não saber conviver com a incerteza - com a dúvida, somos imortais ou com a morte acaba tudo? Deus existe ou não?  Tudo isto se trata de um dado de fé e não existe uma régua para medir o tamanho das nossas certezas.
      
Crer em Deus é fundamental para dar sentido à minha vida, são estas certezas que não deixa o desespero se apossar da minha alma nem a melancolia toma conta de mim, pois acredito na vida eterna. 

E se, exatamente na hora da minha morte, me revelassem que estava enganado? 

Desta forma, faço das palavras do célebre teólogo Hans Küng, as minhas: "E se eu tivesse me enganado e na hora da minha morte entrasse não na vida eterna de Deus, mas no nada? Se assim fosse, de qualquer modo teria vivido uma vida melhor e com mais sentido do que sem esta esperança.”.


A morte é um evento natural. Morremos como qualquer animal, mas nós não somos um animal qualquer: o que caracteriza o ser humano é a consciência de que é mortal, insurgindo-se ao mesmo tempo contra a morte. 

Assim, as questões teológicas passam para o campo filosófico para responder, as perguntas últimas, metafísicas e religiosas: qual é o fundamento de tudo, o que sou e quem sou, donde venho, para onde vou, qual o sentido, o sentido último da minha existência e de tudo?

As palavras de Leonardo Boff a Darcy Ribeiro no seu leito de morte, sobre a ressurreição tem um sentido que vai além da metáfora. Boff fala para Darcy que esta leitura de que tudo acaba que a morte é o fim, nada mais é que uma interpretação de quem não conhece a misericórdia de Deus, citando a história do casulo e da borboleta: “Darcy, acho que é uma interpretação de quem vê de fora. 

É como você ver a borboleta e ver o casulo. Você pode chorar pelo casulo que foi deixado para trás e ver que ele morreu. Mas você pode olhar a borboleta e dizer: Não, ele libertou a borboleta, e ela é a esperança de vida que está dentro do casulo". Boff continua - "Darcy, deixa te dizer como imagino tua chegada, o teu grande encontro não vai ser com Deus Pai porque para você Deus tem de ser Mãe, tem de ser mulher..." (risos)

Entre a fé, a esperança e o amor, o maior sempre será o amor, pois o amor permanece para sempre. Enquanto que a fé acabará quando tudo for revelado, da mesma forma que a esperança, que não fará mais sentido, quando o esperado for alcançado. E então haverá apenas o amor e ele permanecerá por toda a eternidade, pois Deus é amor e nós o seremos com Ele.
        
Voltando aquele pobre homem que estava de luto com a perda do próprio filho, falei de um velho provérbio judaico que diz: “Os filhos que deixamos para trás são nossas boas ações.” 

Meu amigo, não podemos esquecer que o impacto positivo que causamos naqueles que amamos e convivem com a gente é eterno. Toda boa ação que fazemos, por mais insignificante que possa parecer, deixa uma marca permanente no mundo. 

E a bondade acumulada no decorrer de uma vida inteira de moral é uma força de energia positiva que deixa uma impressão duradoura que jamais pode se perder...


Depois que ouviu todas estas coisas, aquele homem agradeceu por tudo e foi embora.

SOBRE O AUTOR E O CONTEÚDO POSTADO



* (Padre Carlos Roberto Pereira, de Vitória da Conquista, Bahia, escreve semanalmente para esta coluna)

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