CULTURA | Álbum explora o sertão castigado e a fé da obra de Elomar

Elomar (Foto: Kika Antunes/Divulgação)

Treze canções da obra singular de Elomar ganham releitura no piano de Tiago Fusco e na voz de Verlucia Nogueira no recém-lançado Estradar.

Os músicos realizam desde 2015 apresentações com o trabalho do violonista. Há dois anos eles chegaram a ser convidados pela produção de Elomar para integrar um ciclo de homenagem de 80 anos do compositor.

A interpretação do universo elomariano não é simples, requer estudos e entendimentos de um dos maiores expoentes da expressão sertaneja.



O trabalho é aberto com a saudação Bespa, um pedido de licença. Segue com Cavaleiro do São Joaquim, retratando paisagens do sertão real e do imaginário sem sofrimento.

A terceira e quarta músicas, A Pergunta e Curvas do Rio, expressam a fome, a miséria e a tristeza na caatinga.

Em O Pidido, a quinta faixa, ressalta-se o encantamento e os mistérios daquela região; Clariô remete às festas e Histórias de Vaqueiros, causos. A oitava composição registrada, Cantada, fala da paixão no contexto do sertão.

A faixa Função é, de novo, sobre festa da grande obra do compositor baiano.

Campo Branco aborda a fé em meio às dificuldades e a terra seca. Depois, no repertório, aparece Retirada, outra canção de sofrimento no sertão castigado e a necessidade de deixá-lo.

Incelença Pro Amor Retirante trata da saudade de alguém que partiu daquelas bandas. Por fim, encerrando, paisagens do imaginário sertanejo em Na Quadrada das Águas Perdidas.

Variedade musical

O trabalho contempla a diversidade criadora e a geografia do universo de Elomar Figueira Mello, com elementos musicais do barroco, do regional, da cantoria de viola, da narrativa épica.


“O sertão desenhado por ele é muito parecido com o sertão que vi e que vivi no Ceará”, diz Verlucia Nogueira, que nasceu em Juazeiro do Norte. Tiago Fusco carrega consigo também rastros interioranos: nasceu em Leme (SP).

Os dois fizeram os arranjos do álbum, onde algumas transposições para o piano da obra ao mesmo tempo rústica e erudita de Elomar impuseram grandes desafios.

Filho do compositor fez direção

Elomar é conhecido pela reclusão – ele vive numa fazenda em Vitória da Conquista, onde nasceu. Assim, para tocar o projeto com pelo menos alguém próximo dele, foi contatado o músico João Omar, filho do compositor baiano, que acabou sendo diretor artístico do trabalho Estradar (a produção musical é de André Magalhães; Selo Sesc).

“Tivemos um trabalho bastante intenso com o João, que trouxe contribuições nos fraseados, nos gestos musicais, nas harmonias elomarianas, no entendimento mesmo do lugar musical que estamos atuando em cada canção”.

Destacou-se no projeto o cancioneiro de Elomar, que tem outras inúmeras peças entre óperas, sinfonias, concertos. “Fizemos um longo estudo e leituras musicais de cadernos de partituras (como a obra do compositor) para nortear as escolhas (do repertório)”.

O trabalho não teve interferência direta de Elomar. “Ele nos contou que estava ouvindo de longe, e brincou dizendo ‘vai sair mesmo?’, pois sabia que desde 2017 passamos a planejar a gravação do trabalho. Contou muitos causos de sua juventude, umas histórias dessas de vaqueiros, com aquela magia poderosa do tempo que ele traz na áurea”, lembra quando o encontrou.

Verlucia Nogueira tem dois álbuns gravados com o projeto coletivo Clareira de músicas tradicionais brasileiras. Realizou estudos em canto lírico e popular.

Tiago Fusco é instrumentista de longa carreira de acompanhamento. Possui estudos tanto em piano erudito como popular, além de regência. | Carta Capital.

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